domingo, 12 de julho de 2009

Opinião

Diploma pra quê?
Mário Marques de Almeida

Com relação ao fim do diploma para o exercício da profissão de jornalista, decretado em recente e polêmica decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), não sou a favor e nem contra, muito pelo contrário... Aqueles leitores que, por ventura acharem que estou sendo dúbio nessa questão, não me posicionando de forma clara e afirmativa nesse debate que, aliás, toma conta das redações dos mais diversos meios de comunicação e, principalmente, virou pauta obrigatória nas discussões das rodas acadêmicas e universitárias, reitero: Nem contra e nem a favor do dito “canudo”, e explico porquê:

Se o jornalista souber escrever, tudo bem, o diploma agrega valor. Diante do contexto atual de falência na qualidade do ensino do jornalismo, trata-se de uma observação necessária. Muito embora pareça absurdo querer exigir de quem exerce a profissão, o óbvio: saber escrever. Se tiver talento para juntar as danadas das letrinhas, trabalhar os vocábulos de forma clara e, de preferência com elegância no texto, sou plenamente a favor não de um, mas de mil diplomas.

Mas, na hipótese contrária, de que vale esse pedaço de papel, se o portador do mesmo não tiver queda para o ofício? Para dependurar na parede, talvez... Porque, geralmente feito de um papel mais grosso, quando não de cartolina, não atende a outras necessidades... Nesses casos, o diploma serve apenas para emoldurar a vaidade de uns quantos.

E a observação é pertinente, considerando o fato que muitos saem das faculdades lendo mal e escrevendo pior. Nesse caso, fico contra querer se impor reserva de mercado para quem não tem competência, vocação, para se estabelecer profissionalmente.

Mais do que contra, fico indignado pelo fato de que certos defensores da formação acadêmica em jornalismo como prerrogativa única e indispensável para o exercício da função, antes que se agarrarem à teta representada pelo corporativismo em torno dos diplomados, como fizeram e fazem, deveriam lutar, isto sim, pela melhoria da qualidade do ensino ministrado pela esmagadora maioria dos cursos de comunicação social existentes no país, inclusive em Mato Grosso. Dificilmente se vê esses arautos do diploma questionando a deficiência técnica e intelectual com que muitas faculdades de comunicação despejam seus formandos no mercado.

Meras usinas de diplomas, verdadeiras “arapucas” semelhantes às máquinas caça-milhões para aumentar fortunas de empresários que se dedicam a explorar esse rico filão do ensino privado. Diversas dessas escolas, que via de regra cobram mensalidades caras, investem pouco na capacitação adequada de seus alunos.

O que resulta no vexame de se ver muitos formados em jornalismo, após ficarem quatro anos esquentando o banco de uma universidade, gastar um dinheirão com mensalidades, ter que se sujeitar a trabalhar praticamente de graça, em troca de salários aviltantes. Fato que gera uma leva enorme de jovens “diplomados”, mas desiludidos com as perspectivas profissionais da carreira que abraçaram.

Sujeitos a permanecer eternamente “estagiários” e, muitas vezes, demandando mais quatro ou cinco anos pela frente, após “formados” e devidamente diplomados, no aprendizado dos rudimentos da profissão, recebendo as grandes lições práticas nas redações e assessorias. E, não raramente, sendo comandados por jornalistas sem-diploma. Uma categoria que se estabeleceu na área, não pela força da corporação sindical, e sim pela capacidade intelectual, pelos neurônios, enfim.

E a ética, como é que fica a ética? Aos que assim indagam na tentativa de afirmar que as faculdades de comunicação social, os cursos ditos superiores de jornalismo, não ministram só as matérias curriculares atinentes à formação profissional, mas também dão noção moral no campo ético. Ótimo. Novamente, fico a favor. Porém, lembro que, semelhante ao samba, ética não se aprende apenas no colégio. É bem do espírito, daquilo que se chama caráter e sua grande universidade é o berço, a família.

Enquanto conceito, a ética é polivalente, cada um tem a sua. E a melhor, por sinal, é a mais simples de todas: a que nos ensina que não devemos desejar para os outros aquilo que não queremos para nós mesmos. Elementar, objetiva, concisa, como um bom texto.

Mário Marques de Almeida é jornalista sem-diploma
Fonte: Jornal Página Única/MT
Opnião - 25/06/2009

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